fbpx
ANGOLANOS LUTAM PELA ALMA DA “KIZOMBA”

Com a abertura de cursos em várias cidades mundiais, a “kizomba” tornou-se moda. Mas, em Angola, há quem lamente que a mudança de estilo no exterior motive uma “confusão” entre a tradicional dança e a sensual “tarraxinha”.

Nos últimos anos, a “kizomba” invadiu pistas de dança de toda a Europa e mais além. “É normal que funcione em todos os lugares”, considera Mário Contreiras, arquitecto de Luanda convertido em promotor de uma dança que significa “festa” em “Kimbundu”, uma das línguas mais faladas em Angola.

“O nosso mundo precisa de carinho. Nós dançamos a ‘kizomba’ abraçando-nos. Na Europa e no mundo não existe uma equivalente. Por isso, quando descobrem uma dança que vem de África em que as pessoas se abraçam, mesmo sem se conhecer (…), eles gostam”, explica à agência AFP.

As raízes da “kizomba” têm sido objecto de debate. Basicamente, é de origem angolana, com um toque das Antilhas ou de Cabo Verde, e tornou-se popular nos anos 1990 graças ao cantor Eduardo Paim.

A “kizomba” inspira-se na “semba”, considerada a dança tradicional do país. Dança-se em casal, bem junto, mas com um ritmo mais lento. É menos agitada, mas mais sensual do que a “semba”.

“É um estilo muito tranquilo, muito suave. Não há muitos movimentos e dança-se com calma”, descreve Elsa Domingos Cardoso, estudante de 22 anos, confessando que tanto se sente feliz a dançar “kizomba” como “semba”.

Fruto do lançamento de cursos em cidades como Paris, Nova Iorque ou Joanesburgo, a “kizomba” tornou-se uma moda à escala mundial. Desse modo, Angola, até então conhecida sobretudo por outros motivos, como a guerra civil e o petróleo, desbravou caminho no panorama mundial da dança.

No entanto, Zelo Castelo Branco confessa que não reconhece a “sua” “kizomba” no estilo praticado no exterior. De tanto viajar, diz, perdeu a sua alma. “Todo o mundo dança a ‘kizomba’, isso tudo bem. Mas os que a ensinam no exterior mudaram o estilo”, critica o DJ.

“Já não é a tradicional e familiar que dançamos com as nossas mulheres, filhos, parentes (…), é extravagante, é quase a ‘tarraxinha’”, aponta, ao referir-se a uma variação da “kizomba”, mais lenta e parecida com a “pole dance”. Em Angola, país cristão, a “tarraxinha” está reservada quase exclusivamente aos adultos.

Mateos Vandu Mavila, um dos chefes do grupo que treina no bairro de Mabor, em Luanda, não se atreve a incluir a “tarraxinha” no programa quando actuam em festas ou casamentos. “Tudo depende da idade das pessoas que participam na festa. Não concordamos que os jovens dancem a ‘tarraxinha’ (…), é demasiado sensual”, indicou.

Para Mario Contreiras, é lamentável a confusão gerada entre a “kizomba” e a “tarraxinha”. “O mundo tentou associar a ‘kizomba’ à sensualidade e a um certo erotismo. Para nós é algo muito sério, é a nossa forma de expressão, é a nossa cultura”, disse, sublinhando que “Angola é a festa e a ‘kizomba’ é Angola”.

Precisamente para defender essa cultura, o arquitecto aderiu ao projecto “Kizomba nas ruas”, lançado em 2012. Todos os domingos ao anoitecer transforma o passeio marítimo de Luanda numa pista de dança para uma turma informal, gratuita e aberta a todos.

“O objectivo é promover a ‘kizomba’” e “dar a “oportunidade de aprender e valorizar a cultura angolana”, resumiu Manuel Miguel, de 26 anos, um dos artífices da operação. (fonte: jornal tribuna de Macau)

Entrevista com José Lemos, responsável pela área de Publicidade e Marketing do projecto Kizomba na Rua Angola:

Por que escolheram a Marginal de Luanda para as aulas?

Dançamos na Marginal porque é um espaço público e temos tido muitas dificuldades em encontrar espaços na capital. Em todos os cantos onde costumávamos dançar ergueram edifícios. O único sítio que encontrámos para dançar é na Marginal.

Qual é o processo de aprendizagem?

Todos os domingos temos um professor que faz a coreografia e ensina as pessoas a dançarem com os passos básicos da kizomba. Primeiro, o aluno vai passar por um processo de aprendizagem dos passos básicos e, posteriormente, quando o professor observar que o aluno já consegue fazer o básico, ensinamos os outros que são a continuidade de muitos outros que virão. Mas é possível [aprender a] dançar num dia. Ensinamos os passos durante uma hora mais ou menos, depois é dançar sem parar. Nós, os profissionais, procuramos dançar com aquelas pessoas que não sabem dançar e assim evoluem mais rápido.

Qualquer um pode dançar?

Só precisa dizer “eu quero, eu preciso”, e nós ensinamos a dançar.

Faz ideia de quantas pessoas já aprenderam a dançar no Kizomba na Rua?

Não temos um controlo do pessoal de todo que dança, mas posso dizer que é muita gente. Acredito que já ensinámos a dançar mais de 100 pessoas, sem medo de errar.

Qual é a média de alunos por domingo?

Depende. Há vezes que temos cerca de 50 pessoas e às vezes temos muito mais do que isso. Quando os professores estão todos aqui, enche muito mais, porque muitos dos alunos seguem os seus professores. Independentemente de estarmos aqui no projecto, cada professor tem a sua escola e os seus alunos. Os alunos dessas escolas também vêm, além das pessoas que passam pela baía para apreciar a paisagem e que também se juntam a nós. Então, somos um número bem grande por aula.

Qual é a maior dificuldade para desenvolver um projecto como este?

Como todos os projectos, encontramos muitas dificuldades, mas cada um de nós faz o que pode. Eu sinto, e os meus colegas também, que temos que fazer algo pela dança. Então, nos entregamos de corpo e alma. Tudo o que temos nós vamos dando. O projecto até hoje não parou e também não vai parar porque temos força suficiente para continuar. Com patrocínio ou sem patrocínio estamos aqui. Não paramos nunca.

Quais são os ritmos ensinados?

Ensinamos kizomba e semba, mas temos um professor que, 15 minutos antes de terminar as aulas, ensina também a dança tradicional, que é um pouco o gingar e temos um outro professor que ensina o house. Temos aqui professores extremamente profissionais com carteira e diplomas dados pelo Chá de Caxinde. Muitos alunos tecnicamente evoluídos são também alunos pertencentes ao núcleo Chá de Caxinde. Então estamos todos unidos por uma única causa que é levar avante esse projecto em prol da cultura angolana.

Os estrangeiros também têm interesse em participar?

Aqui já passaram muitos estrangeiros: portugueses, holandeses, japoneses, mexicanos, pessoas de diversas nacionalidades. Por isso, é que digo: há troca de cultura aqui. Este é um projecto que não escolhe cor nem raça. Todo o mundo está aqui unido e o que mais me emociona é saber que cada um dos estrangeiros dá tudo de si para levar avante e expandir este projecto.

Recentemente vocês entregaram um diploma de mérito a duas estrangeiras. Porquê?

Mandei fazer dois diplomas: um para a Yuko Komori e outro para a Noémie Sido, que considero uma bailarina porque é tecnicamente evoluída e aprendeu tudo aqui no projecto. É de nacionalidade francesa e pelo tempo e contributo que deu para a expansão e desenvolvimento deste projecto, uma vez que ela vai regressar, porque a sua missão [profissional] aqui já terminou, achámos necessário retribuir tudo aquilo que ela fez. Não há coisa mais valiosa do que levar um diploma para a sua terra e dizer “um dia, fui para Angola e fiz parte de um projecto e esse projecto reconheceu-me por tudo o que eu fiz”. Já a Yuko, uma diplomata japonesa cuja missão terminou há cinco meses, foi para o Japão e fez de tudo e conseguiu voltar para Angola. Ela diz que não consegue viver sem a dança e também achei necessário entregar-lhe agora um diploma.

Já houve estrangeiros que aprenderam a dançar no projecto e agora estão a ensinar kizomba nos seus países?

Temos sim. A Frederica ensina em Portugal e em França, porque ela aproveita o Paulo Isidoro dos Reis, que é mentor do projecto e trabalha em França agora. Tecnicamente, ela evoluiu aqui. Ela cresceu connosco e, com a ida do professor Paulo para França, juntou-se o útil ao agradável, passando a ser uma bailarina e parceira do professor.

Quem quiser apoiar como deve fazer?

Nós não precisamos de dinheiro. Precisamos de alguém que apareça, um empresário de boa fé que ofereça mais uma coluna, água ou apoio às actividades. É dessa forma que queremos que nos apoiem.

Projectos?

Como um dos membros responsáveis deste projecto, o que eu almejo é que todo o mundo um dia diga “eu sei dançar e bem porque passei pelo projecto Kizomba na Rua” e consiga transmitir o que aprendeu a outra pessoa. A minha intenção é colocar quase toda a população de Luanda a dançar e, se nos derem a oportunidade, chegar a outras províncias e criar núcleos de forma a divulgar mais.

Projecto Kizomba na Rua Angola

Quem?

Paulo Isidoro dos Reis (presidente), Osvaldo Lima (vice-presidente), Gabriel Cabinda (campeão nacional de kizomba 2011 e membro do projecto), José Lemos (Marketing) e todos os vencedores do Festival Nacional de Kizomba são membros da direcção.

Porquê?

O projecto foi criado para dar oportunidade às pessoas que não têm possibilidade de pagar uma escola e para divulgar mais a cultura nacional. O grupo defende que a kizomba, além de fazer bem para a saúde, é uma forma de unir diferentes culturas e tradições. Cada um vai partilhando aquilo que tem com todos e assim conseguem levar o projecto avante.

Como?

Através de aulas gratuitas.

Onde?

Aos domingos, na Marginal de Luanda, das 16h30 às 20h.

Quando?

O projecto foi criado no dia 30 de Novembro de 2012.

Deixe uma resposta

2019 MA ENTERTAINMENTS © TODOS OS DIREITOS RESERVADOS